Fim da boate Alôca sepulta uma era de ativismo gay

Por pedrodiniz

Por Silas Martí

Este domingo amanheceu sem Alôca. Uma ação da prefeitura, afirmando que a casa não respeitava leis de silêncio urbano, emparedou as portas do sobrado na rua Frei Caneca onde funcionou a mais tradicional balada gay de São Paulo. Mais do que uma boate, Alôca, que durou mais de duas décadas ali, foi um reduto de resistência, um dos espaços mais democráticos da noite paulistana e palco de ativismo político, aventuras sexuais e muita música.

Todo gay paulistano ou que já esteve em São Paulo suou, dançou e talvez transou lá dentro, entre paredes de fibra de vidro que simulam uma caverna. Joia encardida do centro, Alôca teve seus altos e baixos e parece agora encerrar sua história por decisão do poder público. Desde que André Pomba, mítico DJ que comandava as noites de domingo do clube, deixou de tocar por ali, a casa parecia estar entrando em decadência, mas não deixa de perder seu simbolismo.

É triste que depois de resistir a épocas de verdadeira perseguição à noite por administrações mais míopes do que a atual, Alôca saia de cena. Sucumbe em meio a acusações e desavenças. Mas São Paulo e a cultura gay paulistana perdem mais do que uma balada. O que está em jogo, caso os proprietários da casa não consigam reverter a decisão da prefeitura, é a dissolução de um ícone, encerrando talvez uma era de ativismo gay na maior cidade da América do Sul.

Numa metrópole em que a noite se redesenha a cada instante com modas passageiras, era um consolo saber que Alôca, aquele lugar onde tantos entre nós saíram do armário, estaria sempre ali, um buraco para mais aventuras, bebidas duvidosas e uma pista de dança em ebulição. Muitos clubes históricos da cidade abriram e fecharam as portas enquanto Alôca sempre esteve firme no mesmo lugar, uma espécie de âncora de todas as tribos da noite com inclinações hedonistas.

Essa gruta estranha sempre será lembrada, talvez fetichizada, por sua sujeira, uma espécie de caos primordial onde identidades nunca foram estanques. Lá dentro, bêbados e drogados ou não, todos podiam ser tudo. Lembro sempre os garotos mais novos, os que entravam com RGs falsos para dar beijos triplos e afins, e também a turma mais velha que não assumia sua sexualidade em público e encontrava ali uma arena livre, sem julgamentos nem limites.

Livros já foram escritos sobre Alôca e testemunhos nostálgicos não vão faltar neste momento. Mas ela acabar da forma como parece ter acabado, sem ao menos uma despedida, é fechar um capítulo da história da noite paulistana sem consideração com os milhares de gays que tinham ali um reduto de expressão. São Paulo sempre foi uma cidade violenta, não só na selvageria das ruas, mas também na forma como trata sua história. Este é mais um exemplo de um ato de violência, praticado contra uma população que ainda vai à luta todos os dias para sobreviver, tantas bichas e viados que ali se orgulharam de ser bichas e viados, mas ainda podem apanhar por isso na selva de pedra de verdade lá fora.